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Paul Cultural

Paul Cultural

10
Set16

JOSÉ ANTUNES MARMELO E SILVA

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Visita dos alunos doTeixoso à Casa da Cultura Mar

 

José Antunes Marmelo e Silva deu o seu nome à Casa de Cultura da Freguesia do Paúl,Concelho da Covilhã, Distrito de Castelo Branco.

 

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VIDA

SÍNTESE BIOGRÁFICA

José Antunes Marmelo e Silva nasceu a 7 de Maio de 1911 em Paul, Beira Baixa. Estudou no Seminário do Fundão e em escolas secundárias de Covilhã e de Castelo Branco. Frequentou a Universidade de Coimbra mas, devido à publicação de Sedução, teve de concluir a licenciatura (em Filologia Clássica) na Faculdade de Letras de Lisboa onde apresentou uma tese sobre Virgílio – Um sonho de paz bimilenário: a poesia de Virgílio. Colaborou no semanário lisboeta O Diabo, com o pseudónimo Eduardo Moreno, e na revista presença, de Coimbra, cidade em que conviveu com o grupo neo-realista. Prestou serviço militar em Mafra e na Madeira. Fixou residência em Espinho (onde leccionou na Escola Secundária) até à data da sua morte, em 11 de Outubro de 1991. Foi agraciado, em 1987, com a medalha de ouro da cidade de Espinho. Com o grau de Comendador da Ordem de Mérito, foi condecorado pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares, em 1988.

 

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA

A cronologia é um processo útil que nos permite, de forma rápida, conhecer um outro autor. A sua grande virtude é a facilidade de consulta, que potencia uma interiorização de dados referentes a uma vida ou a um percurso vivencial e cultural, uma vez que, de forma esquemática, condensa “o que é útil saber” sobre um autor…Este fica reduzido a datas significativas da sua existência.
A cronologia biográfica revela-se, assim, sempre algo cru, algo que simplifica demasiadamente todo o percurso de uma vida, algo que concentra em poucas palavras e linhas uma existência corpórea, uma vivência pessoal, profissional e literária… Os autores perdem sempre um pouco com esta condensação informativa, uns porque há muito o seu espírito vive do testemunho das suas obras, outros porque se sentem aprisionados, porque o seu espírito ainda paira, ainda fala através de outros que o conheceram, ainda anseia dar-se antes de entregar-se silenciosamente à voz sempre eterna da obra literária.       
Talvez seja este o caso de José Marmelo e Silva.
Assim, seguindo uma ordem cronológica, apresentamos e explicitaremos não só os momentos fulcrais da vida deste autor, como tentaremos aprender o seu espírito pairante e deambulante e dá-lo a uma descoberta sempre marcada pela emoção de uma revelação.

1911
Nasce José Marmelo e Silva, filho de Emílio Antunes Marmelo e de Beatriz da Silva, a 7 de Maio, na freguesia do Paul, concelho da Covilhã, Beira Baixa. E logo aqui, nestes dados tão objectivos como concretos, encontramos a ficcionalização de uma identidade, operada pelo escritor de forma voluntária e consciente – é o caso do nome, uma vez completo não continha o apelido “e Silva”, tendo sido acrescentado pelo próprio, retirando-o do apelido de solteira da mãe. Durante o período liceal, é conhecido por todos por como José Emílio, ou seja o nome do pai; deixa, contudo, sempre a dúvida no ar, nunca esclarecendo, permitindo uma confusão que se torna deliberada – é o caso da data de nascimento que a grande maioria pensa ter ocorrido no ano de 1913. Digamos que o escritor se esconde e se descobre num jogo de máscaras, os “Eus ficcionais” das suas obras, e se reinventa na factualidade através dum jogo deliberado que ficciona a identidade. Talvez porque haja a necessidade de “Criar uma magia sugestiva que contenha ao mesmo tempo o objecto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista”, como ele mesmo terá intimamente explicado citando Baudelaire, nos seus Diários a que chamava Memoriais (inéditos).

Década de 20
Frequenta o seminário do Fundão, donde sai com 17 anos. “Sair” será talvez o verbo eufemístico a usar nestas circunstâncias; sai, de facto, por incompatibilidades de Ser e de Pensar com o sistema e a instituição. A sua alma não se conseguia aprisionar em regras, em jejuns, em sublimações de impulsos vistos, por si, sem o véu mistificador do tabu. É de notar que ler Os Maias, como este escritor fazia, era considerado um crime e uma violação dos rígidos princípios morais, já que Eça de Queirós era catalogado como um autor imoral e lascivo.

Décadas de 20 e 30
Colabora, enquanto jovem, n`O Brado Académico, n`O Raio, da Covilhã, e naMocidade Livre, de Castelo Branco. Esta actividade participativa juvenil suscita no próprio autor a seguinte reflexão, volvidos anos de amadurecimento e de criação literária: “Quanto a mim, eu viera limpo de coração das asperezas da Estrela, das minhas colaborações combativas n`O Raio, da Covilhã, e na Mocidade Livre, de castelo Branco.” (Todas as citações do autor, salvo indicação contrária, são retiradas dos seus Memoriais, inéditos.)

Década de 30
Colaborou no semanário lisboeta O Diabo, com o pseudónimo Eduardo Moreno.
Lecciona em Espinho no Colégio Pedro Nunes, onde conheceu Colina, sua futura esposa. (O nome da esposa é Marcolina, mas ele sempre a designará por Colina.)

1932
Publica O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo.

1936
Presta serviço militar em Mafra. Esta ocorrência do destino permite-lhe viver uma existência à sombra da farda e de um Convento que albergava militares e uma História cheia de glórias e de derrotas…uma História da vida de um povo que se reflecte na vida de cada um. Esta experiência vivencial inspira e ecoa emDepoimento.

1937
Publica a 1ª edição de Sedução, Coimbra, Livraria Portugália.
Funda, juntamente com outros intelectuais, a Editora Portugália, em Coimbra, que se inaugura com a publicação da 1ª edição de Sedução. Este projecto editorial conhece um fim abrupto e precipitado, após a partida de Marmelo e Silva para Lisboa, e após a quebra de arrojo e ousadia em criar e publicar o diferente, a voz dissonante que inovava. Este fim desiludiu o autor e a mágoa é ainda palpável numa reflexão escrita da sua voz interior, que constitui um artigo do Diário de Coimbra da década de 70, quando um dia olhou para trás e observou o seu percurso literário: “Trouxe do Paul o poeta Augusto Abranches, subtraindo-o a uma frustração desesperadora, e com dinheiro que pedi ajudei-o a montar a modestíssima “Portugália” (o seu estamine, como lhe chamava), que ele transformou surpreendentemente numa forja de sonhos – os mais válidos. De hora a hora, criou ali uma convivência memorável, toda a agitação, porfia, com os jovens (de Coimbra) mais prometedores da geração de 37. Discutia-se, revolvia-se (tudo o que valia a pena), até ao berro, até à exaustação. Forja de poetas… Forja de gente. De tarde à noite, malhava-se o poema como na bigorna o aço. Contudo, é Sedução, curto romance, que abre as edições Portugália – e, sem dúvida, primeiro sinal de alarme, sinal daquele grande jogo juvenil. Logo dele se fez eco a crítica (…). Vinha nascendo. Era nascente. (…) Mas tudo isto passava num tempo inicial e pré-mítico, pré-consumo e pré-glórias. Fecundo tempo de mãos dadas a abrir caminho para a liberdade da cultura por sua vez libertadora. Neste mesmo Natal de 37, vim de Coimbra para Lisboa. Por lá ficou a camaradagem dos que ficaram… E não por longo tempo: quebraram-na, quero crê-lo, com o abandono a que foi votado o Augusto Abranches, poucos anos depois, excluindo-o do Novo Cancioneiro. Trinta e três anos rodados são ainda breves para um julgamento inemocional e inflexível. No entanto (vejo-o agora à luz da manhã clara:) foram os traficantes da cultura e a propaganda-satélite (heterogénea) quem jugulou essa espontaneidade original, colectiva, solidária, des-sexuando-a, reduzindo-a a coisas, a monopólio, a deve-e-haver, quando haveria lugar para tantas virtualidades sem castração. Enquistaram o movimento, esterilizaram-no – com cintos de castidade, com sujeição a modelos insexu.

1939
Publica a 1ª edição de Depoimento, “Presença”, nº 1, séri II (a convite de José Régio).

1940
Licencia-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa, após ter, de igual modo, frequentado a Universidade de Coimbra, onde não pôde concluir a licenciatura devida à publicação de Sedução, o que o obrigou a transferir-se para Lisboa para terminar a licenciatura, com uma tese sobre Virgílio – “Um sonho de paz bimilenário: a poesia éoica de Virgílio”. Se atentarmos na data, 1940, ocorre-nos que a licenciatura foi bastante tardia; contudo a explicação é simples, tão simples quanto linear era o castigo do infractor ou prevaricador, enfim, daquele que não agia segundo o padrão instituído: o seminário recusou-lhe a carta de habilitações, facto que o obrigou a percorrer a escolaridade, tendo repetido todos os degraus desde a primária. Este percurso realizou-se em escolas de Coimbra e Castelo Branco. A vida enquanto estudante universitário em Coimbra é vivida de forma plena e intensa, tendo o autor pertencido à tuna académica de Coimbra, o que lhe permitiu viajar pelo país, nomeadamente pelas Ilhas.
É mobilizado em Aveiro. Circunstância favorável a uma vivência militar bafejada pelo ar íntimo e tépido da Ria, aquecida por um sol que doirou experiências… e que veio, posteriormente, ecoar em Anquilose.

1943
Concede uma entrevista, em Novembro, ao Jornal de Notícias, “5 minutos de conversa com o escritor moderno”.
Embarca para a Madeira, o que lhe permite contactar com a insularidade, com um pensar, um viver e um sentir rodeados pelo mar. Uma experiência vivencial enriquecedora que lhe dá uma visão abrangente de um existir em português e que ecoa em Desnudez Uivante. Apontamento singular: a vida militar teve para o autor uma duração de “antes da promoção a oficial – um ano e 136 dias; depois da promoção a oficial – 4 anos e 46 dias”, como consta no certificado de “Liquidação Anual do Tempo de Serviço”.
Publica a 2ª edição de Depoimento, in Os Melhores Contos Portugueses, Porto, Portugália; a 3ª edição in O Sonho e a Aventura, Coimbra, Atlântida.
Publica a 1ª edição de O Sonho e a Aventura, Coimbra, Atlântida, contendo os contos Narrativa Bárbara, Depoimento e O Conto de João Baião.

1946
Casa, em Agosto, em Lisboa, com Marcolina de Oliveira Gomes, a quem ele sempre chamou Colina, tendo passado a lua-de-mel em Sintra.

De Setembro de 1946 a Junho de 1947
Regressa à Madeira, ao Funchal, já casado e na companhia da sua esposa, leccionando, durante esse período, no Colégio Académico do Funchal, de que era proprietário.

1947
Fixa residência em Espinho, onde permanece até à data da sua morte. Integra a direcção do Colégio São Luís, de que é co-proprietário, onde lecciona até 1960. Neste ano abandona o ensino particular e integra no ensino oficial, o que o obriga a encetar um novo período de formação profissional, desde o estatuto de professor provisório até o de professor efectivo, o que o leva a percorrer diferentes escolas e diferentes locais, numa migração interna pelo país, que o conduz, entre outros sítios, a Tavira. Esta deambulação permite-lhe o contacto com diferentes realidades, experiências e gentes e, contudo, um “isolamento, um isolamento dentro de mim mesmo”, como ele próprio anotou. Após ter alcançado a efectivação, lecciona na Escola Secundária de Espinho, onde exerce uma acção pedagógica intensa que rasga horizontes de leitura, de conhecimento, de futuro e de vida. Mantém esta actividade profissional até à data da sua reforma em 31 de Julho de 1982, solicitada quando, com 70 anos, sente “satisfação, no plano escolar, remorso, no plano literário”, quando ainda confia “na possibilidade de FAZER”, quando pressente com mágoa a falta de reconhecimento por um trabalho de uma vida dedicada ao ensino – “Tudo muito calmo na escola. Uma indiferença de rochedo. Um absoluto desconhecimento pelo mais elementar protocolo. Eu aprecio este silêncio como o vazio deixado por um ditador: primeiro um silêncio fundo, só depois o regozijo explode” – um reconhecimento só posteriormente demonstrado e, carinhosamente, dedicado.

1948
Publica a 1ª edição de Adolescente, Coimbra, Portugália.
Publica a 2ª edição de Sedução, Porto, Portugália.
Concede, em Junho, uma entrevista ao Diário Popular, “Artes e Letras”.
Nasce o primeiro filho, em Maio, José Emílio. Vamos encontrar uma anotação singela nos seus Memoriais, a propósito do nascimento: “Salve! Salve! Nasceu o menino às 2h38 da manhã. Uma grande alegria indescritível!”

1949
Nasce o segundo filho, em Maio, Nelson. Este nascimento fica marcado nos seusMemoriais com a seguinte anotação: “Domingo: Às 0h50, com menos dificuldade que o Milito, assistido por mim, avó e parteira, nasceu este menino, no meio de um grande optimismo e confiança!”.

Fins da década de 40 e década de 50
Dedica-se à actividade agro-comercial, que constituía já um trabalho com raízes familiares.

1955
Escreve um artigo, no suplemento literário do Jornal de Notícias, intitulado “Tempo de Conciliação”, como preparatório da reunião magna, em Coimbra, dos escritores neo-humanistas no vigésimo aniversário do seu movimento a ocorrer em 1957.
Publica “Uma Academia dos Generosos modernistas ou o equívoco do "Grupo surrealista de Lisboa” (13 de Maio), “Lembro aos críticos a humildade” (28 de Janeiro) e “Outra ilusão da crítica – o estrangeirismo” (11 de Fevereiro), todos noJornal de Notícias.

1957
Escreve um artigo no suplemento literário do Jornal de Notícias, em que alicerça a ideia de reunir todos os escritores neo-humanistas em Coimbra, no vigésimo aniversário do seu movimento, intitulado “Vamos a Coimbra! Todos!”, um convívio a todos útil, contribuindo para o engrandecimento do neo-humanismo. Um artigo que termina em tom exortativo: “Vamos a Coimbra! Todos!”. Será como uma nova ´queima das fitas`excepcional e enternecedora. Políbio lá estará connosco, apesar de tudo e nós com ele. Igualmente o Feijó. Serão lembrados vivamente.”

1958
Publica a 2ª edição (acrescentada) de Adolescente Agrilhoado, Lisboa, Arcádia.

1959
Concede, em Março, uma entrevista ao Mundo, “Breve Encontro com Marmelo e Silva”, entrevista de José dos Santos Marques, e ao Diário Ilustrado.

Década de 60
Colabora no Diário de Notícias e na revista Seara Nova, tendo publicado nesta última, entre outros, os Poemas da Ilha de Porto Santo.

1960
Adquire a quinta em Macieira de Cambra. O seu refúgio ao ar livre da terra, a sua possibilidade de diálogo isolado com o sol, o verde, o azul…”Os meus ouvidos pressentem lá fora o ruído do Sol. A tremulina tem som. Impele-me o desejo de medir a minha resistência cardíaca. Rio e entrego o rosto às línguas de fogo que me esperam. E o primeiro contacto é exaltante” – anota nos seus Memoriais em Agosto de 1981.
Publica a 3ª edição de Sedução, Lisboa, Estúdios Cor.
Concede, em Fevereiro, uma entrevista à República, conduzida por Mário Dias Ramos: e em Maio, ao Diário de Notícias, “Diálogo com Marmelo e Silva”, por Álvaro Manuel Machado.

1964
Colabora no Boletim Escolas Técnicas.

1965
Concede, em Agosto, uma entrevista ao Diário de Lisboa, “Vida Literária”.
Participa, durante todo o mês de Setembro, num estágio pedagógico em Sèvres e em Paris.
Publica a 2ª edição de O Sonho e a Aventura, Lisboa, Editora Ulisseia, contendo os contos Narrativa Bárbara, Depoimento e Ladrão!.

1967
Publica a 4ª edição de Depoimento, Lisboa, Col. Mosaico, s. d., 5ª edição, in Os Mais Belos Contos de Amor da Literatura Portuguesa.
Publica a 3ª edição de Adolescente Agrilhoado, Lisboa, Editora Ulisseia.

1968
Publica O Ser e o Ter seguido de Anquilose, Lisboa, Editorial Ulisseia. A primeira versão de O Ser e o Ter é O Conto de João Baião – edição única.
Concede, em Março, uma entrevista ao Jornal de Notícias, conduzida por Serafim Ferreira; em Março, a A Cooperação; em Maio, A Capital, “Dez minutos com Marmelo e Silva”; em Julho, uma entrevista ao Diário de Notícias, “Os escritores falam do que escrevem”.
Eclode uma polémica entre o autor e Mário Sacramento, corporizada em “diálogo aberto” no Litoral de Aveiro, devido a críticas do segundo publicadas no Diário de Lisboa a propósito de supostas incongruências na obra do primeiro. Este “diálogo aberto” concretiza-se através de uma série de artigos de afirmação-resposta, nomeadamente “Mea Culpa” ou talvez não ao sr. Tenente Gonçalo Maria”, de Mário Sacramento; “Com Licença!”, de José Marmelo e Silva; “Ponto de Admiração!”, de José Marmelo e Silva; “Ponto de desolação”, de Mário Sacramento: “Coaxos” e “Ronrons”, de Mário Sacramento e José Marmelo e Silva. Uma polémica que estala porque o crítico (Mário Sacramento) reage a um reparo justo do criticado (José Marmelo e Silva), como descreve Serafim Ferreira em carta a Mário Sacramento de 20 de Setembro de 1968.
Publica “Post-scriptum a 33 de Longitude”, no Diário de Coimbra (8 de Maio).
Década de 70
É alvo de uma série de programas na RTP, nomeadamente O Livro à Procura do Leitor, de Manuel Poppe, em Fevereiro de 1972; A Ideia e a Imagem, de Álvaro Manuel Machado, em Junho de 1978; O Homem é um Mundo, texto de Rogério Rodrigues e realização de Leonel Brito.

1971
Publica Anquilose, Lisboa, Editora Ulisseia.

1972
Publica a 4ª edição de Sedução, Lisboa Editora Ulisseia, com um ensaio histórico-analítico de Arnaldo Saraiva.

1973
Publica O Ser e o Ter, Lisboa, Editora Ulisseia.

1975
Nasce, em Março, o primeiro neto, José bento, filho de José Emílio.

1977
Nasce, em Dezembro, Beatriz, a primeira neta, a segunda dos netos, filha de José Emílio.

1976 - 1980
Os netos fascinam e emocionam o avô-escritor que regista nos seus Memoriais a evolução de José Bento e Beatriz e a relação que entre eles se estabelece gradualmente: “Zé Bento começou hoje voluntariamente a andar (sem amparo). Que festival à família reunida”; “1976 – Zé Bento: desloca-se amparo, faz uso de notável expressividade ( de sons), diz: olá! (a cumprimentar): luss…(pedindo o candeeiro aceso); buz…(pedindo unicamente que o acompanhem dançando, de bracinho em arco”; Zé Bento: sentindo a minha ausência, instalou-se no meu escritório. A avó veio dar com ele pensativo, interpelando-o, ouviu-lhe a queixa: fugiu… Às 19:30, entro em casa, saúdo, ele vira-me as costas, sacode a mão: nã, nã, nã. Faço várias tentativas, ele resiste sempre. Até que, à noite, quando os pais o levarem, ele despediu-se muito ternamente com chi…(um dos seus chis muito raros)”; “Domingo de 1980 – os primeiros beijinhos da Beatrizinha ao avozinho.”

Década de 80
Realiza uma série de conferências nomeadamente, uma sobre Luís de Camões, no dia 10 de Junho.

1981
Publica o “Prefácio” a Poemas de Políbio Gomes dos Santos , limiar (reeditado em 1998, campo das letras).

1983
Publica Desnudez Uivante, Porto, Limiar.

1984
Concede, em Maio, uma entrevista a A coisa.

1986
Publica a 4ª edição de Adolescente Agrilhoado, Lisboa, Editorial Caminho, com prefácio de Maria Alzira Seixo – retirada do mercado; 4ª./5ª edição, Lisboa, Editorial Caminho.

1987
Concede uma entrevista ao Letras & Letras, conduzida por Joaquim Manuel dos Santos; e a O Diário, em Maio, por Serafim Ferreira.
É agraciado com a medalha de ouro da cidade de Espinho.

1988
É condecorado pelo então presidente da República Dr. Mário Soares, com Grau de Comendador da Ordem de Mérito. Já doente, fez-se representar pelo filho Nelson.

1989
Publica a 5ª edição de Sedução,Lisboa, Editorial Caminho, com um ensaio de Arnaldo Saraiva, publicado a primeira vez na 4ª edição.
Nasce a neta Maria Eduarda filha de Nelson.

1991
Parte a 11 de Outubro. Foi o fim de uma vida que passou por uma adolescência dedicada ao “seminário”; uma juventude consagrada à “licenciatura, ao grego e aos clássicos”; um adulto dedicado ao”amor, amor, amor…” – como ele próprio anotou. Uma morte encarada como um repouso necessário à alma, ao corpo, como exorcismo de paixões e de viveres, como organização inexorável do caos do universo da vida. É o que podemos inferir das suas próprias afirmações nos Memoriais (inéditos, manuscritos) – “Tensão arterial alta, assustadora. A morte é mais tranquila que a vida: nada mais ordenado que a morte, nada mais desordenado que a vida do homem. A tranquilidade absoluta é a morte. O repouso do coração.

 

A OBRA FICA

1

José Marmelo e Silva é um caso singular, na novelística portuguesa contemporânea. Devem-se-lhe algumas das páginas superiores que se escreveram entre nós, nos últimos cinquenta anos.
Nem todos deram por isso, o que não surpreende num meio literário «exemplarmente» corrupto. Já aqui o sublinhei: nunca tantos disseram bem de tantos; nunca levas compactas de parceiros, irmanadas no elogio mútuo, se afirmaram como hoje. Os italianos chamam-lhe mafia. E quem não paga o contributo fica de fora. Era o caso de Marmelo e Silva.

2

O momento literário distingue-se como acrílico (hora às excepções). E se a crítica objectiva e livre representou, sempre, na feira literata, heresia insuportável, agora desapareceu, praticamente. Recordam-se da indignação e raiva que provocavam os escritos de João Gaspar Simões? Ora foi ele um dos que sublinharam o talento extraordinário de Marmelo e Silva. Desde 1937, quando este publicou «sedução» - e logo se distinguiu, pela complexidade psicológica e o equilíbrio técnico. Nas obras que vieram depois – assinalem-se «Adolescente Agrilhoado» e «O Ser e o Ter» - confirmar-se-ia uma personalidade original.

3

A «Presença» modificara a novelística portuguesa, aproximando-a da Europa, enriquecendo-a no plano da análise psicológica, salvando-a das garras dos académicos; o neo-realismo ia aparecer, chegando ao realismo socialista, empenhado na intervenção e na contribuição para a transformação das estruturas através da arte.
José Marmelo e Silva tentou – e conseguiu, admiravelmente – conciliar esses vários aspectos: os seus livros denunciam uma situação injusta e fazem-no apoiados em personagens verosímeis. Os conflitos sociais revelam-se informados pela densidade humana e psicológica. Ou seja: a complexidade das novelas de Marmelo e Silva coloca-o num lugar à parte.

4

Provavelmente, a independência diante da arte empenhada neo-realista contribuiu para a desatenção de que foi vítima o autor de «Anquilose». Envolviam-no, de facto, fumos de «heresia». A literatura queria-se «orgânica». Pagou o preço da originalidade e da riqueza.

5

Consciência dos conflitos sociais, dos dramas interiores, das teias que embaraçam e angustiam as relações humanas. Ao que, muito raro em qualquer literatura, e raríssimo entre nós, junta Marmelo e Silva o mérito de uma oficina exemplar: linguagem e arquitectura essenciais, poesia e vida contínua que se opõem à retórica, aos tempos mortos, ao barroco livresco. Mais que não fosse, nisso reside a sua actualidade. E, por contraste, já que se voltou – e de que maneira! – à retórica, à verbosidade, ao ouropel (naturalmente, com o beneplácito da crítica... acrítica). José Marmelo e Silva, de quem tantos se esqueceram, ultrapassava em qualidade – e ultrapassa, porque a obra fica – quase tudo o que, hoje, se valora.

6

E podemos considerar dois planos: o da riqueza sem fronteiras das suas novelas e o da agudeza e subtileza com que analisou e desmascarou a nossa realidade dos anos escuros do salazarismos. Não se limitou a esta – limitando-se à denúncia voluntariosa, mas esteticamente insuficiente? Não, porque era um grande artista e sabia que a arte «só actua mediatamente»: através da emoção estética conseguida. Uma coisa é arte, outra, propaganda ideológica.

7

O que não significa que um artista, um criador autêntico não possa, na obra de artista, de criador, comunicar a sua ideologia, que é mundividência. Esta está-lhe implícita. E, no caso do neo-realismo, que eu aqui trouxe, basta citar dois ficcionistas admiráveis: Soeiro Pereira Gomes (o de «Esteiros» e Manuel da Fonseca. E, se quisermos ir pelas boas intenções – de que o inferno está, infelizmente, cheio... -, creio que elas não faltaram a José Marmelo e Silva: desafiou o anterior regime, abertamente. Atacou-o de caras. E da maneira mais perigosa: com a mestria de um criador. Obedeceu de tal modo à sua vocação, foi-lhe de tal modo fiel, que se assumiu e apresentou como era: um escritor extraordinário. A feira não o aceitou? Que importa? O que fica é a obra. O resto é conversa, compadrio, fraca coisa...

 

 

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